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Crítica | Cavaleiro da Lua ep. 05: O seriado acha seu rumo, próximo do final

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É sempre curioso — para não dizer irritante — quando percebemos que um roteiro prefere apostar no mistério e vez de efetivamente contar sua história. O episódio 5 de Cavaleiro da Lua me lembrou muito Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, ou melhor, todo o conjunto da trilogia do Aranha no MCU: três filmes, cerca de 7 horas de “conteúdo” (sem contar as outras participações do personagem na “cinessérie”), que compõem uma longa jornada, se desviando por várias ramificações, apelando para outras duas séries de filmes, só para, no fim, voltar ao começo, e contar a origem que todos conhecemos de modo indireto.

É isso que Cavaleiro da Lua fez. Depois de muito andar em círculos, a série ocultou seu personagem principal por baixo de outra personalidade, envolveu seu passado em mistérios, nos fez pensar que a trama da história era mais centrada nos planos de Arthur Harrow que em Marc Spector… só para revelar tudo em forma de flashback, a infância traumática, a relação com a mãe, a origem do “Steven Grant” e a origem clássica do “Cavaleiro da Lua” que já conhecíamos dos quadrinhos.

O que é uma pena, porque fomos privados, por três episódios, de uma história muito melhor.

No episódio passado, eu comentei que a série ficou melhor quando não teve o Cavaleiro da Lua, e eu gostaria de adicionar a esse comentário, porque não é exatamente esse o caso: a questão é que ainda não tínhamos um personagem, apenas uma pergunta. “Quem é Marc Spector?”, “qual é a personalidade original?”, essas eram as perguntas que moviam a trama centrada nele, mas ainda não o conhecíamos de verdade, por conta da decisão de fazer dele um mistério, não uma pessoa. Agora, no episódio 5, temos uma pessoa. Com isso, temos uma história.

Foi um episódio muito interessante. Para começar, é sempre bem-vindo quando a série abraça a ambiguidade, nos deixa (mesmo que um pouquinho) confusos quanto ao que estamos vendo, como forma de acentuar a confusão do próprio personagem, e não apenas adiar a narrativa. Esse é o outro mundo de verdade? A deusa existe? Ou será que Marc não é mesmo um paciente psiquiátrico do “Dr. Harrow”? Steven Grant foi mesmo criado depois de o menino Marc assistir os filmes do “pseudo-Indiana Jones” quando criança? Todas essas são perguntas usadas não para nos enrolar, mas para criar a estrutura narrativa para efetivamente dar as respostas.

Com isso, agora conhecemos Marc Spector e sua pesada relação com a mãe, que, ok, foi uma abordagem um tanto exagerada, mas funciona. Fica bem mais fácil entender não só como Marc foi parar na vida de mercenário dele como também onde estava esse “Steven Grant” dentro dele — porque, pense bem: conhecendo o modo de agir do “Marc”, de onde ele tirava aquele jeitão bonachão do “Steven”? Fica subentendido que ele poderia ser assim, não fosse o trauma de ter causado sem querer a morte do irmão e de ter sua felicidade cerceada pela mãe (também traumatizada). E é muito bonito e triste ver que o Steven foi a válvula de escape que ele conseguiu criar para que ele pudesse viver algum tipo de felicidade, em algum nível.

É também muito interessante o papel do “gaslighting” e da manipulação psicológica na trama. Se você não conhece o termo, gaslighting é o nome que se dá a uma espécie de abuso psicológico, na qual uma pessoa, o abusador, manipula informações e usa o discurso de forma a fazer com que sua vítima duvide da própria sanidade, assim, o abusado passa acreditar que sua versão da história “deve ser a errada” já que ela “era louca desde o começo” — uma coisa muito frequente em relacionamentos abusivos. É o que Arthur Harrow faz desde o início da série (por exemplo, na cena da conferência dos deuses), e que Marc já internalizou a ponto de aceitar que ele é mesmo “louco”, e que o “Dr. Harrow estava certo”, no início do episódio 5. Mas também é importante no momento em que o Cavaleiro da Lua é criado, no qual Khonshu se aproveita dessa fragilidade psicológica e emocional para criar essa entidade, seu avatar de vingança.

O que cria um Marc/Steven como uma figura trágica muito singular, mas tem um efeito ainda mais curioso: mesmo, agora, sabendo que “Steven” era uma fachada criada por Marc para lidar com o trauma, sua “morte” na cena final ainda é um momento forte. É ao mesmo tempo uma “vitória” do Marc, porque é quase como se ele se livrasse de uma condição psiquiátrica, mas também é uma perda trágica de um amigo. É uma morte, de um “eu”, de qualquer forma.

E com isso, já conhecendo de fato Marc, seus traumas, suas tristezas, o peso que ele carrega e como tudo isso culminou na ascensão do Cavaleiro da Lua, agora sim, é possível se importar com o Cavaleiro da Lua como herói. Antes, era só um traje bonito, usado em algumas cenas meia-boca de luta contra monstros de computação gráfica. Agora, ele é resultado de uma vida de escolhas (ou de falta de escolhas), tem um significado real.

Finalmente, temos um personagem. E, com isso, temos uma história. Uma pena que seja tão tarde.

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