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Por que a Marvel Studios não fez mais nenhum filme do Hulk?

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O primeiro trailer de Mulher-Hulk acaba de ser divulgado pela Marvel, e nele pudemos não só ver Jennifer Walters, a própria Mulher-Hulk, como seu primo, Bruce Banner, o Hulk. É mais uma participação especial do personagem, um elemento recorrente e, a essa altura, essencial no Marvel Cinematic Universe, mas, desde seu próprio filme, O Incrível Hulk, de 2008, que foi apenas o segundo filme dessa continuidade (lançado logo depois de Homem de Ferro, no mesmo ano), ele nunca mais protagonizou nenhum filme. Por quê?

Como funciona o acordo com a Universal

O Hulk sempre foi um dos personagens mais populares da Marvel Comics, e adaptações estreladas pelo “herói” já são um clássico do cinema e, principalmente, da televisão. O seriado O Incrível Hulk, de 1977, é lembrado até hoje. E já tivemos três atores vivendo Bruce Banner nos cinemas; Eric Bana, Edward Norton e, o atual, Mark Ruffalo, que substituiu Norton nas subsequentes produções do MCU, mesmo sendo o mesmo personagem.

Hulk, de 2003, dirigido pelo aclamado Ang Lee, é mais uma produção que se deu no “boom” de filmes de super-herói liderado por X-Men e Homem-Aranha no começo dos anos 2000, mas com bem menos sucesso que estes, o que dificultou uma continuação. Ele também é mais um personagem Marvel que a editora vendeu para estúdios variados numa época de dificuldades financeiras — os mutantes foram para a Fox, o Aranha para a Sony, e o Gigante Esmeralda para a Universal. Com o tempo, a Marvel fundou seu próprio estúdio de cinema e criou o projeto mais bizarramente bem-sucedido da história do cinema, e esses personagens foram sendo reincorporados a esse projeto de várias maneiras diferentes: enquanto o universo mutante retornou depois que a Disney, dona da Marvel, comprou a Fox, mas ainda não estrearam de verdade, Homem-Aranha e Hulk já fazem parte do enredo dos filmes e têm acordos razoavelmente parecidos: a Marvel Studios produz os filmes, Sony e Universal respectivamente têm os direitos de distribuição.

Porém, ao que parece, as negociações com a Sony são consideravelmente mais tranquilas que com a Universal, tanto é que Peter Parker participou de uma miríade de produções da Marvel, tem sua própria trilogia e até recuperou personagens de outras versões da Sony, numa grande celebração da franquia nos cinemas.

Já com a Universal, a conversa é outra. O acordo dá à Marvel Studios a liberdade de usar o personagem em “produções com múltiplos personagens”, como os vários Vingadores em que ele fez parte da equipe, mas mantém direito de veto quanto à distribuição de futuros filmes solo dele — um direito que, ao que parece, ela tem usado desde então.

É difícil encontrar uma explicação para essa atitude. Mark Ruffalo já chegou a declarar que não entende muito bem o motivo para isso. De acordo com ele, um filme solo do Gigante de Jade nunca vai existir:

A Universal tem os direitos do filme solo do Hulk e, por algum motivo, não sabe trabalhar direito com a Marvel e não quer ganhar dinheiro.

Ele até chegou a esclarecer que quer o filme do Hulk, e que não é porque ele disse que não vai sair, que a possibilidade está descartada. Mesmo assim, uma declaração como essa é um sinal de que existe uma dificuldade para isso acontecer.

Mas, além da questão dos direitos do personagem, existe também o aspecto narrativo, e, nesse âmbito, talvez a Marvel já tenha criado uma armadilha para si mesma.

Como fazer um filme solo do Hulk hoje

Com esse acordo, a Marvel Studios se viu na situação de não poder colocar o Hulk no centro de nenhum filme, o que fez com que ele sempre participasse dos filmes de equipe — o que não chega a ser novidade para o personagem. Nos quadrinhos, ele já fez parte de um número de equipes, como os próprios Vingadores, do qual é membro fundador, e dos Defensores (apesar da relutância do grupo todo em se autodeclarar uma “equipe”).

Existe uma característica muito peculiar na maneira como a Marvel conta suas histórias, ao longo de seu universo compartilhado. Seus filmes costumam ser o chamado “ensemble movie”, ou “filme de elenco”, ou seja, a força da narrativa está em como um grupo de personagens interage entre si, além da força das estrelas reunidas para a produção (pense, por exemplo, em Onze Homens e Um Segredo). Os filmes solo criam personagens carismáticos, feitos sob medida para serem amados, e os de equipe, os grandes “crossovers”, são eventos que reúnem todos esses personagens legais que adoramos de outros filmes. É um grande Friends: The Reunion que a Marvel organiza a cada 4, 5 anos. Para isso, obviamente, todos esses caras precisam ser muito legais, muito “amigões” uns dos outros, em maior ou menor escala.

O Hulk, com toda certeza, é um enorme (literalmente) exemplo disso. Seu primeiro filme foi a história de origem padrão dele — acidente, perseguição pelo governo, Banner lidando com “o monstro dentro de si” — e ele chegou até a tentar cometer suicídio; ou seja, ele já foi o personagem dramático. Mas, com o arco pelo qual ele passou ao longo do MCU, a essa altura, o Hulk já é um alívio cômico, como em Thor: Ragnarok, Vingadores: Ultimato e, agora, em Mulher-Hulk. Vem funcionando, dentro do contexto dessas produções, e, quer gostemos ou não, esse é o personagem que temos agora.

Mas isso funciona principalmente porque ele é um coadjuvante. Caaaaso a Universal liberasse a produção de um Hulk 2, considerando a premissa e a origem do personagem, e como ele costuma ser usado nos quadrinhos, seria de se esperar uma história dramática, pesada, trabalhando a ideia de “médico e monstro” e tudo mais. O que seria um desvio de curso muito esquisito, se pensarmos no Banner/Hulk bonachão de Ultimato, ou em como ele era engraçado em Ragnarok.

Mas justamente Thor: Ragnarok pode servir de exemplo de como a Marvel Studios não tem grande problema em mudar o curso de uma franquia, caso exista uma visão clara de como isso funcionaria, e caso isso se encaixe nos planos da continuidade da “metanarrativa”. Depois de dois filmes dentro da “fórmula Marvel”, o terceiro Thor foi convertido numa comédia hiperestilizada sob a batuta de Taika Waititi, e o próprio Thor se tornou um personagem muito mais cômico do que era antes. Transformar o heroico Thor num “bobalhão musculoso” funcionou perfeitamente bem, e o elevou junto aos fãs — por que não “retransformar” o alívio cômico que hoje é o Hulk num personagem trágico?

O fato de o Hulk ser uma ameaça constante aos próprios companheiros já foi bastante usado nos outros filmes, como no primeiro Vingadores, ou em Era de Ultron, no qual ele teve até de ser contido pela armadura Hulkbuster do Homem de Ferro. Criar uma trama na qual ele finalmente perde o controle por completo não seria totalmente inviável. Além disso, o último filme do MCU, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, também contou com um antigo protagonista convertido em vilão. Não seria a primeira vez.

Mas, então, o Hulk seria um vilão? Um vilão no filme de outro personagem? Não exatamente. Os quadrinhos do Hulk sempre brincaram com a ideia de ter um monstro como protagonista. Às vezes, ele é uma vítima de suas circunstâncias, mas muitas vezes ele é quase que diretamente um vilão mesmo.

Capa do último volume de O Imortal Hulk (2018), por Al Ewing.Capa da primeira edição de Hulk (2022), por Donny Cates.

Na última grande fase do personagem, O Imortal Hulk, roteirizado por Al Ewing, o protagonista é basicamente um ecoterrorista com ideias revolucionárias perseguido pelo governo. Além disso, o “Hulk” dominante entre as várias personalidades que residem dentro de Bruce Banner é um “Hulk Demoníaco”, muito mais cruel e poderoso que todos os outros. Essa fase também retrabalha o conceito de energia gama, e a liga a ideias metafísicas, outros planos de existência, Deus e o “Diabo”, algo tão sobrenatural quanto cósmico (é um dos melhores “retcons” da história dos quadrinhos). A energia gama nunca mais foi importante dentro do MCU e, agora que o foco está menos “ficção científica” e mais místico, as ideias de Ewing podem se encaixar muito bem nas portas que foram abertas com Multiverso da Loucura e Eternos, por exemplo.

Já na fase atual, comandada por Donny Cates, pegando um gancho que Ewing deixou ao final de sua última edição, o próprio Bruce Banner é quase que um vilão, e está no comando do Hulk, como se ele fosse uma “nave”. É mais uma maneira muito inventiva de usá-lo, subvertendo a ideia de Banner ser uma vítima das circunstâncias e dando mais agência e camadas a ele.

Claro, isso pode ser um pouco demais para o MCU, pois implicaria em fazer com que um de seus heróis ficasse bem menos simpático do que estamos acostumados. Como já citado anteriormente, algo do tipo já foi feito, em Multiverso da Loucura, mas pode-se argumentar que a escala de importância aqui é outra, e isso diminui as chances de que repitam o feito. E mesmo esse herói-transformado-em-vilão do Doutor Estranho ainda é retratado de forma simpática ao final do filme, porque a Marvel Studios tem, aparentemente, um medo de que não gostemos de seus bonecos.

De qualquer forma, existem diversas avenidas para explorar o Hulk. Ele pode ainda ser o protagonista de uma comédia, que não reverteria o conceito atual do personagem, mas não precisa ser apenas um cara legal conversando com os personagens principais de outros filmes, e que às vezes fica verde e gigante e mais forte que todo mundo (…menos que o Thanos). Ele pode ser muito interessante — principalmente se a Marvel Studios decidir ousar, e levar o personagem a outro patamar. Ele pode até mesmo ser o centro de uma próxima megassaga nos cinemas, o potencial é ilimitado! Só basta querer… e a Universal liberar.

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